25.9.09

Nova casa

Aqui.

7.7.09

Prenez soin de vous

Sem querer, eles se encontraram. Ali começou um romance. Houve felicidade e momentos partilhados. Fizeram planos, fizeram amor inúmeras vezes, beberam grandes quantidades de vinho, dançaram ao som de Piaf, brigaram por causa de ciúme, das viagens, do assédio de outras mulheres. E, um dia como outro qualquer, se distanciaram e o relacionamento acabou.

Toda história de amor que termina, que seja mal resolvida, tem um grande potencial de virar arte. É uma tentativa de expurgar o ranço que se instala quando a frustração vira fato consumado. É como se precisássemos fazer isso, falar, escrever, compôr, materializar o sentimento de rejeição.

É esse o tema do trabalho da escritora francesa Sophie Calle, que chega ao Sesc Pompéia neste mês. Sophie expôs sua ferida registrando a reação de 104 mulheres (incluindo marionetes e uma cacatua) ao email que recebeu de Grégoire Boullier, então namorado, terminando o relacionamento dos dois.

Quando li a reportagem publicada em Bravo! deste mês, não consegui esconder um sorriso tímido de satisfação. Afinal, há a solidariedade feminina e o fato de todas as mulheres terem passado em algum ponto da vida por situação semelhante. Era a concretização de uma vingança pessoal que encontra abrigo na massa de espectadores que um dia já foram abandonados.

Apesar da atitude um tanto corajosa, fiquei com uma sensação de incômodo grande. Primeiro pelo fato de a artista se expôr dessa maneira - e expôr também seu par que, com certeza, não foi consultado para tal propósito. Apesar de sentimentos humanos serem grande fonte de arte, não acredito que as relações amorosas devem incluir um público maior do que duas pessoas (ou três, ou quatro, ou como desejarem e acertarem entre si os envolvidos). É a velha máxima de lavar em casa a roupa suja - não numa tentativa de manter aparências pequeno-burguesas, mas principalmente pelo respeito à intimidade que permeia as relações.

Após uns cinco minutos pensando sobre o assunto, me compadeci de Grégoire. A sua atitude extremamente infeliz ao enviar o tal do email me pareceu algo desesperada e intempestiva. E agora não há nenhuma obra de arte para que ele possa expressar todas as angústias que entremeavam seu coração na hora que sentou e escreveu aquelas palavras. Pobre Grégoire. Poucas pessoas se colocarão em seu lugar e admitirão que também erraram, um dia, ao usar de modos infantis e cruéis para colocarem pontos finais em histórias mal-sucedidas.

Para sentir, além de teorizar a obra e a história, o trabalho de Sophie estará a partir de 10/07 no Sesc Pompéia. Ele é também integrante do Ano do Brasil na França. Seu nome é "prenez soin de vous", ou "cuide-se" em português. Foi com essa frase que Grégoire terminou o email enviado para Sophie. E é com essa frase que começa outra história.

26.6.09

Três

O mais velho adotou óculos. Sem armações, discreto e necessário. Em nossa última conversa, ele tinha reclamado de dores de cabeça. Agora estão lá, repousadas no nariz as lentes que tanto faziam falta. Ficou com cara de mais maduro, um homem bonito, sereno. Pela falta de delicadeza com o objeto, terceirizou a limpeza das lentes. Dei uma gargalhada gostosa. A mulher que faz o serviço me sorriu: "Enquanto posso, por que não? A vida depois fica dura, você sabe".

A mais nova estava em seus pijamas, numa sonolência sem fim. Acabaram-se os estudos e agora tinha pela frente 2 mil quilômetros de estrada para alcançar o descanso. Tudo tinha seu lugar no ambiente. Os livros nas prateleiras, as fotos na parede. E, ao percorrer os olhos, me vejo ali estampada ao lado dela em 10x15. Ela frequenta o paraíso, me conta sorrindo. E foi expulsa de lá justamente quando a música estava boa.

O menino do meio cresceu. É bonito e responsável na medida. Diz que ele dá sorte aos negócios. Acredito. Lhe dei um livro de guitarras. Ele pediu licença para retirar uma capa frágil, eu aprovei. Saímos juntos de carro, ele pilotava com tranquilidade. Ouvimos músicas, trocamos impressões sobre solos e riffs. No supermercado apontei uma oferta e dividimos os pacotes até o carro. "Meu cantor preferido morreu assassinado", ele disse. "O meu também", respondi.

Fui embora ouvindo Peter, Paul e Mary enquanto o amor se derramava em silêncio.

19.6.09

Chamada interrompida

Talvez fosse intencional. Talvez essa necessidade de humilhação, esse pouco que poderia dar - e havia tão mais, tanta coisa, ela sabia como era - fosse como uma provação de sua servilidade. Provação que tava aí pra desafiar papéis e conceitos. Imaginou os colegas do escritório vendo sua boca suja, os dedos nos lábios, o cabelo repuxado. Todos, sem exceção, se calariam de espanto. Por que era ela a fazer todas as perguntas? A divagar no deserto, punhetando assunto variados, aquele discurso pronto, bom dia, bom dia. Eu sei o que você quer, eu vendo o que você precisa, mas será que eu estou vendendo mesmo aquilo que eu posso produzir? Ou resolvi financeirizar nossa relação fio de navalha? E, veja bem, passou pela cabeça da garota. Quanto me paga por mês? Me registra, assina a minha carteira? Pois bem, se ando me vendendo por tão pouco e se acha que valho alguma coisa, era um comércio a se pensar. Por que não? No que mais eu poderia lhe surpreender se essa formação acadêmica toda não surte efeito? Se minha arte não reverbera? Se o sobretudo colado ao corpo não inspira mais do que uma interjeição posada - justamente aquela guardada na garganta para ocasiões em que as crianças vem nos mostrar uma novidade caída (não podemos machucar as crianças, queremos adultos saudáveis). O pior é que não se sentia nem um pouco envergonhada, porque percebeu que havia demanda pra parca mercadoria. Vamos transformar nosso relacionamento, baby, em relações exteriores. Vamos bater nossos corações no compasso da maquininha de calcular, que delícia. Isso me excita poderosamente. Daí quem sabe eu parcelo a viagem pra Vegas, eu compro um carro, eu ajudo a mãe? Toda história de amor tem um pouco de maldade intrínseca. O meu maior mal, o de todos os tempos, é fazer caber no coração essa dubiedade de querer ferir os joelhos lhe amando e, ao mesmo tempo, comandar seu gozo com as palavras. Pra quê tanto poder, meu deus? E sua imagem fica repulsiva, obscena, coloco as mãos nos olhos, me recuso a ver do que faço parte. Talvez fosse intencional. Talvez gostasse de rastejar e ser tratada como semi-humano, semicondutor, semiótica. Se você não fosse um mistério, se não ficasse asqueroso a cada dia, se não houvesse tempo, cuidado, trabalho. É tedioso acompanhar o desenvolver de suas rugas - me interesso por elas de uma maneira sarcástica como se assistisse lentamente a sua perda de tempo, lhe sorrio pelas costas. Ao mesmo tempo é o que mais me encanta: fico a pensar onde repousa verdadeiramente o seu amor, quando o chama, se o faz baixo para poucos ouvirem ou se utiliza aquele ardor que você interpreta tão bem, também. Meu amor, lavaria seus cabelos com delicadeza se um dia deixasse eu tocar em você com honestidade. Do que me valem esses dias, possuir esse corpo maduro, se enfim calo sozinha minhas mãos entre as pernas? Do que me vale essa doação de tempo, essa vida de espectadora, se nada do que fazemos tem amor? Me diga agora o nome de todos os seus filhos e das outras com quem se deitou. Me conte da cicatriz no joelho, confesse os pequenos furtos da adolescência, minta sua vida para mim. Já não aguento mais entregar minha história para uma pessoa oca. Lhe beijar é sentir frio na beira do abismo. Lamento, querido. Cheque o pulso, pode estar morto há muito.

12.6.09

Pelas andanças nos blogs queridos, vi que ela e ela estavam a falar sobre o silêncio.


Há meus silêncio dos livros, uma quietude que eu prezo muito. O silêncio da leitura me encanta bastante, porque é um silêncio onde se deslumbra. Um silêncio cheio de sons imaginários, portas e janelas e ambientes a fazer barulho dentro de páginas caladas, imóveis, pétreas.


O silêncio da morte, da partida. A vida que cala os olhos.


O silêncio da casa vazia, dos corações frios - os chinelos se arrastam e os pés sussurram.


O silêncio a ajudar os ladrões de imagens que ficam inertes só para ouvir a respiração do amado a ressonar, cansado dos corpos, ao seu lado.


O silêncio que precede uma boa idéia.


O silêncio da memória a vasculhar o nome do líder sindical da Polônia na década de 1980.


O silêncio da saudade que ameniza uma dor com um sorriso sutil, daqueles de mostrar poucos dentes, mas que enfim celebra um ponto final.


O silêncio dos concentrados e seus rostos severos - esses silêncios me dão vontade de rir (não por escárnio nem maldade; mas para insuflar os outros a suavizar a expressão - nenhum silêncio, por mais difícil que seja, deve ser doloroso).


O silêncio do fim.

11.6.09

Feriado

Tinha acordado com o espírito renovado pela poesia da noite anterior. A beleza não era dela, mas assim é da natureza das palavras: terceiros se apropriam como se brotassem de si. Levantou-se, calçou os chinelos e foi à cozinha. A mãe lia um livro que ela mesma havia terminado há pouco. Serviu-se de um gole de café. Queria contar da boa noite de sono, contar que iniciara um livro de Boris, contar enfim da frase de Eliot. Mas ele interrompeu cheio de si e lhes disse:

- Quando voltar, quero a mesa posta.

E foi assim que aquela manhã explodiu.

A mãe levantou-se rápido, deixou o livro aberto, acendeu o fogão. Ela saiu de perto, foi para o quarto e sentou-se à escrivaninha. Respirava com pressa, como se estivesse se preparando para uma fuga. Bateu um vento frio e ela achou que ia chorar, mas não foi o que aconteceu. Era a segunda vez que algum sentimento estranho a invadia (a primeira foi quando aos 24 descobriu ter uma filha de 16). Mas era diferente. Era como se suas entranhas quisessem se desprender. Não era raiva, ódio, ou algum sentimento menos nobre. Era antes uma sensação de estar viva, mesmo em um momento tão adverso. Pulsava apressada, olhou em volta como se a familiaridade do lugar fosse lhe dar um pouco de paz, ou situá-la dentro da rotação apropriada.

Recusou-se a almoçar aquele quadro. Aquelas pessoas, aquela vida. Não se sentia triste. Era só uma posição, um partido que adotava. Tudo bem se respirar fundo. Tossia e sentia um pouco de sangue na garganta. Mas era da existência ferir-se sem querer.

9.5.09

Bento e o sol